
Sobre a cabeça os aviões Sob os meus pés os caminhões Eu organizo o movimento Eu inauguro o monumento No planalto central do país Condições de trabalho: as piores possíveis Fábricas não tinham janelas, abusos horríveis Acidentes de trabalho sem indenização Engordando mais e mais o bolso do patrão Crianças e mulheres: principal mão de obra Da mesa do banquete ao filete, nada sobra Salários miseráveis, sem direito a aposentadoria Péssima situação, além da selvageria Os dias de barbárie séria estavam contados E culminou com a guerra dos braços cruzados Carroceiros, padeiros, trapicheiros, estivadores Operários, caixeiros, tipógrafos, trabalhadores Manifestações, motins, ocupações Por mais respeito, melhores condições Redução da carga horária que era hostil Proibição total do trabalho infantil Atos que foram logo, claro, declarados atentados ao poder soberano do Estado Se quisessem, tudo poderia ter sido evitado Amordaçar um povo é fabricar exaltados A carga da cavalaria da brigada militar entrara em ação Na missão de controlar, reprimir e restaurar a ordem, custe o que custar Falta pouco pra chegar onde quero chegar Já já vão se encontrar povo e força policial Na procissão do operário morto de forma brutal Vai ter material de sobra pro Jornal Nacional Confronto inevitável, batalha campal Quem me contou a história foi mãe Sebastiana Tim tim por tim tim, sentada na beira da cama O final desse encontro, hein, você nem imagina Descubra o que foi o buquê de Espertirina Sobre a cabeça os aviões Sob os meus pés os caminhões Aponta contra os chapadões Meu nariz Eu organizo o movimento Eu oriento o carnaval Eu inauguro o monumento No planalto central do país Cultura, aprendizado, ocorrências que narrei Nos dão noção: sem pressão não evolui a lei Bom lembrar: o opressor mudou a forma de atuar Sinto cheiro de enxofre deles no ar Travestidos, misturados em meio à multidão Discursos progressistas, reacionários de plantão O âncora se afunda; no intervalo, comentário: o lixeiro é o mais baixo da escala do trabalho Filha da Folha, Barbara Gancia é a escolha O gueto vive a rua e você na sua bolha Zottolo gritou pro mundo todo ouvir: «O Brasil não pode ser igual ao Piauí» Que tanto faz para deixar de existir O lembrete: existe vida humana por ali Podem vir apreciar, filmar, se divertir Mancada o mercenário Stallone mentir Todos catadores, catadoras, lixeiros Domésticas, acessoristas, serventes, pedreiros Não proponho bomba ou tudo pelos ares Só pra informar que reconheço os meus pares De boa, cara ou coroa, mesmo que necessite Eu seguirei rejeitando, na moral, seus convites Assuma a autoria dos erros que cometeu Se ninguém ligar a Rede Globo, fui eu Júlio Medaglia é o autor desse arranjo original Higo Melo é o mentor da pororoca musical O velho se faz novo, ó, é a verdade Assim caminha, se renova a humanidade O maestro sendo ouvido por toda comunidade O popular, o erudito, medalha, outra sonoridade Oportunidade pra quem desconhecia Caetano, «Tropicália», versão rap, quem diria Sobre a cabeça os aviões Sob os meus pés os caminhões Aponta contra os chapadões Meu nariz Eu organizo o movimento Eu oriento o carnaval Eu inauguro o monumento No planalto central do país Eu canto na guerra, como cantei na paz Pois o meu poema é universal É o homem que sofre, o homem que geme É o lamento do povo oprimido, da gente sem pão É o gemido de todas as raças, de todos os homens É o poema da multidão «Meu Canto de Guerra», de meu pai Solano Trindade
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