
Subi na prateleira e puxei meu passado Um livro velho escrito todo errado Marcado em trechos longos, marca-páginas dobradas Com folhas secas e eu fotografado Em tantas séries e com tanta gente que eu nem sei quem são Memórias resistentes, lembranças que não se vão, então Eu vou vagar por ele, eu vou soprar o pó Tirar essa poeira daqui pra entender melhor Eu lembro de andar em cima do telhado Trepar na goiabeira que crescera logo ao lado Catar jabuticaba no pé do vizinho Jogar pedra no rio brincando de reizinho Correr pra todo lado sem temer se machucar Voltar todo ralado, calado pra ninguém notar Eu cavo o meu passado pra me encontrar nesse buraco E entender melhor No pasto eu aprendi que o quero-quero tira lasca Se lasca quem não leva guarda-chuva nessa caça A árvore de ingá no meio da pastagem Só herói chega até ela, só quem tem coragem E é por isso que eu andava com o boneco do Shun Preferia Cavaleiros a Castelo Rá-tim-bum, jogava bola Até gastar a sola no concreto Descalço mesmo, sem pensar demais no que é correto Mas velho, toda a criançada era santa de verdade A gente ia pra igreja, ninguém fazia maldade Mas isso só até a metade do colegial Quando chegou a idade em que isso não é mais normal Alguns continuaram no caminho da pureza Eu tenho amigo de infância que virou pastor da igreja, ou seja Gostaram tanto dessa pureza que se sente quando é criança Que montaram acampamento ali mesmo, no mundo da infância Se eu olhar pra trás do tempo do «era uma vez» As coisas perdem nitidez quando eu tinha uns cinco ou seis O bairro em que eu morava não tinha edifício nem asfalto Todo alarde era alarme falso E nesse tempo eu nem sabia se era certo ou errado Quando eu fazia uma besteira ninguém era culpado Entendo essa galera que ficou no acampamento, mas lamento Olhei pra frente e hoje eu tento ir com o vento Ando com a barraca enrolada na mochila E só acampo pra dormir ou pra tomar um chá de camomila Carrego o que presta e o que não presta eu jogo fora Pra não pesar eu jogo até dinheiro fora Porque a Terra corre solta, gira aflita enquanto muda E a gente segue montado no casco da tartaruga Vou riscando as páginas desse meu livro velho Contando tudo o que faço, do berço ao cemitério
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