
Pra todos os meus manos de verdade! Pro meus manos na atividade! Entre os becos, em cima das lajes… Do jeito que andam as coisas, caminho por outro lado É que minha área nem sempre é um lugar seguro Já encontrei saída pro labirinto «passado» Então não passa um dia sem que eu faça planos pro «futuro» Eu peço a paz, ainda que eu não possa pagar por ela Eu peço a paz, ainda que eu não possa acabar com a guerra Eu posso ouvir, mais um soldado ferido Quantos nossos vão cair pra tu se sentir protegido? E não adianta tapar o ouvido, não! O Manguinho tem voz, enquanto tiver nós e o Leonicio Meu protesto é por escrito, me inspiro em aquilo vejo O mundo não seria salvo nem que isso fosse um desejo! (não) Mas quem gosta de ouvir verdade? Então deixa teu copo cheio e sua alma pela metade Se eu morro pelo eu digo, quem se importa? Seja bem-vindo a norte, o coração dessa cidade Dia à dia sendo mais forte, bebendo corote, sem contar com a sorte Vivendo no holocausto, mas fora do holofote O semblante cansado pede outra dose e pensa formas de sobreviver Nessa eterna caça dos malote E de pinote fugindo do abismo, procurando paz Meu bairro sempre citado em páginas policiais Meu bairro sempre lotado de pérolas culturais Se aqui tivesse oportunidade seria bem mais Orai por nós, meu povo se encontra cansado Por causa da cor da pele sempre julgado culpado Por causa de onde veio sempre tem emprego negado E depois se perguntam porque nós vivemos revoltados Vivemos dopados, tragando a morte do cigarro Abstraído do fardo que sempre nos deixa aos prantos Meu santo é forte por isso corro dobrado Pra defender minha favela sem trocar tiro no campo Voltei, to de volta pro conflito Habitando uma casa com 39 tiros Eu com 21, vivo desde 97 Os menor do artigo 12 não passa dos 25 E Gabriel sempre com a cara na janela O corre-corre aqui na área é tiroteio Andando com os menor da caixa-baixa todo dia E eu to lutando pra caralho pra ele não entrar no roteiro Pode vim de garfo, hoje é dia de sopa Quem treina nós aqui, são vocês mesmo! E agora o desabafo vai ser o dedo no gatilho Até Jesus sofreu martírio, com nós é do mesmo jeito Eu tive pensando em desistir, mas só pensei Aqui na área o início começa no fim Onde filho chora, morre e a mãe assiste Sua bruxaria é fraca, não «Lemalf Salocin» É que aqui no Manguinho, o realismo é trocação Os menor largando o aço pra enguiçar caveirão São balas perfurando a fundação Fiocruz Ainda não sei por que se sacrificaste por nós na cruz (Fugindo da luz) Nas sombras enxergo o pior, se eu morrer aqui Não poderia escolher um lugar melhor (Sem dó) Se o ferro te acertar, vai sentir a sensação queimando Chegando perto de Deus com a morte se aproximando (E as mães em prantos) Será que eu mereço morrer? E queimar no inferno por todas merdas que fiz? (De nada me arrependi) Botei a comida na mesa vendendo umas drogas no plantão de pistola Enquanto arrancam até hoje a nossa raiz (Mataram a Flor-de-lis) Será talvez que minha ilusão Foi dar meu coração com toda força pra essa vida (Engatilha) Tô quase sem sentimento e os menor com sangue no coração Morto na beleza fria de Maria
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