
Rakim era um moleque tranquilo Cheio de complexos Se achava tão magro que, huh, pesava gramas, não quilos Queria ter a altura igual dos primos Quem sabe ajudaria na autoestima Nítido o quanto era tímido Camisa de rap ou camisa de time do Coringão, dia a dia via a minha— Não, a sua aparência e condição virar piadinha Panfleto ajudava a arrumar um vintém E ele não levava uma com ninguém Na escola, na sala de aula Não conta; ali ninguém fala de aura Quis ser eleito o mais bonito, mas, nele, ninguém votava na urna E ele tava na turma onde cada aluna Não ligava pro quanto ele gostava da Bruna Que uns brincavam: «a Akuma!» «Vai, ô, desenho da bolacha Nikitos!» Eu nunca comprei uma treta tão bem E eu pensei em render um caixa no grito Por minhas irmãs e ela, porque ela é preta, também E é por causa deles que ela não me acha bonito Ele lembrou de tudo isso hoje ao entrar no banheiro da faculdade E ver o que na porta tava escrito Você quer o mundo pra você, enquanto eu quero algo pra mim Algo que foi roubado por você, algo que vá mudar o fim Você quer o mundo pra você e não importe o quanto custe Ou quantas vidas custem, ou o que sinta como ser Ai, ai, ai… Ah! Eu vou matar um hoje Pensando bem, eu vou matar um monte! Mas vocês vão pro céu, né? Poder morar Gente, que cara é essa? Vamos comemorar! Garçom, pode descer mais Bacardi É uma taça pro Cocielo e outra pra Day McCarthy Lindos, só não liguem pro gosto de veneno, tá bom? Ops, vai já tarde! Nossa equidade vive em leito, 'cê vive em prédio Apartamento caro, a carta vem com carro E facul paga, custo de vida alto, eu nem tive médio «Mas, ah, as cotas—» Ô, burro, isso é direito, não privilégio! «Cara, pensa em Deus, lembra da Bíblia Tanto que o salmo, o salmo diz—» Cala a boca enquanto eu tô calmo! É hoje que eu ateio fogo em vocês Sou sofredor, odeio todos vocês E de crimes, vão ter que por meu nome no topo da lista Que eu sou fogo na pista, e num logo nazista Nesse jogo classista, desse povo racista Ahhh! E que a Globo me assista! Você quer o mundo pra você, enquanto eu quero algo pra mim Algo que foi roubado por você, algo que vá mudar o fim Você quer o mundo pra você e não importe o quanto custe Ou quantas vidas custem, ou o que sinta como ser Ai, ai, ai… Aí, chama a imprensa que eu vou me ver Entrar atirando, entrar tirando os pseudo-Hitler Então, quem é o macaco? Quem vem do safári, mano? «Se acalma, broth—» «Brother?» 'Cê tá me paparicando?! Então canta: «Pode Ser», do Pedro Mariano? Não, não pode ser, seria um negro clareando Você é a típica pessoa de bem, mas adora fazer piada com preto E até rap uns faz agora Fala até «nigga», então me leve ao teu líder Minhas irmãs não são tuas nêgas, eu não sou teu nigger! Hoje eu sou herói, supra, ultra, hiper, mas Entrei com pressa e esqueci a paz lá fora! Aí, isso aqui é por todas que me zoaram «Pensa nos teus pais…» Foda-se! Vou dá cinco— Aliás, um minuto pra vocês calarem a boca Antes que alguém se exploda aqui Ah, perdoa a falta de etiqueta e educação Que vem de berço, não vem de letra «M-m-mas…» Não tem «mas», não tenta a sorte, nem se meta Se você nunca chorou pela morte de gente preta E não sabe o que é nascer e num ter berço É inconcebível, igual Machado de Assis não ter verso Ou morrer tentando provar que é tão ser humano quanto Conte-me mais sobre racismo reverso
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