
Jão, estouro na Norte Agora a gente faz a boa Na favela, é rapidinho pra se envolver Assistia na TV e não podia ter Mó veneno ir pra escola de chinelo de dedo Não tive infância, muito menos brinquedo Sem perspectiva, sem futuro Minha mãe, doméstica, não tinha estudo Família sem estrutura, meu pai batia em mim A vida do crime, se pã, meu trampolim Muito álcool, muita droga, armamento pesado Periferia, laboratório, eis o resultado Uma pá de Bin Laden descendo o asfalto Violência, tráfico, latro e assalto Sem escola, emprego, incentivo cultural Pátria amada, mãe gentil, Brasil desigual Necessidade é uma ambição, fui me, truta Haha, uh, jão, vamo chegando Tudo nosso, mó mamão, cê vai ver O time é eu e mais quatro, nóis num joga pra perder 200 que só sua cara, só pra começar Nóis vai se levantar, a tendência é melhorar É uma lupa da Armani, um Golf zerado O flat nos Jardins, outra fita, status De lá de frente entrei, no sapatin dominei Todo mundo rendido, me senti um rei Fisionomia transformada, tremia, suava A adrenalina, quase não controlava Tava tenso, mas firmão, deu tudo certo Meu ego dizia: o mundo é dos esperto A giratória não brecava, agia com malícia Eu pegava o pé de porco na febre sem preguiça Dois minuto era a cena, encosta, Teneré Puxa o pino da granada, gambé volta de ré A gente nem imagina do que é capaz Eu era honesto, bom filho, bom rapaz Dinheiro é o mal, ambição em alto grau Caguetagem de patri vai ver no final Se você cultivar o ódio, vai colher a dor Se você praticar o bem, vai colher o amor Se você cultivar o ódio, vai colher a dor (a dor, a dor) Se você praticar o bem, vai colher o amor O dia a dia é incerto, a tensão é constante O termômetro do réu é medido a todo instante A muralha me dá agonia Só de física, vou tirar meus dias Segunda sem lei, cortesia da casa Um coxinha na muralha quer acabar com a minha raça Se eu vacilar, se pã, é meu fim Pra atrasar, tem uma pá de estopim Em minhas orações, peço a Jesus Que ele me oriente e me mostre a luz Porque a covardia é aliada à traição Não posso me engrupir com sorriso de ladrão Livros me ajuda a passar o tempo Uma carta ameniza o sofrimento Mente vazia é oficina do diabo 14 de cadeia fui condenado Flashback, Collor inocente A justiça é cega, a ideia é quente Motivo: grana; motivo: cor Não nasci filho de doutor Um réu algemado, juíza racista Tem peixe graúdo envolvido nessa lista Que rouba, milhões, milhões ninguém vê E a gente vem preso, não dá pra entender A maioria igual a mim tão jogados nas celas Preto, nordestino, morador de favelas Sei que o crime não é justificável Mas a desigualdade é inafiançável Sei que o crime não é justificável Mas a desigualdade é inafiançável Se você cultivar o ódio, vai colher a dor Se você praticar o bem, vai colher o amor
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